Progressos nas vacinas de cancro cada vez mais sólidos

Os últimos 60 anos têm sido dominados por uma abordagem predominante no tratamento do cancro: a quimioterapia. Com tudo o que foi possível progredir nesse caminho, torna-se claro que precisamos reunir esforço para desenvolver alternativas terapêuticas mais eficazes e menos debilitantes do organismo. De facto, o tratamento baseado nestes produtos consiste num estratégia de ataque ao cancro comprometendo todo o seu meio envolvente. O paradigma das vacinas de cancro é diferente. Fortalece-se os instrumentos de combate local de forma a eliminar o inimigo a partir de dentro. Trata-se a pessoa, respeitando-a e fortalecendo-a, saindo assim reforçada fisica e psicologicamente. A quimioterapia, muito embora tantas vezes necessária, representa uma força bruta, reflexo quiçá da mentalidade militar de onde teve origem. Inicialmente um sub-produto utilizado como arma química na 1ª e 2ª Guerras Mundiais (gás mostarda), foi tornada tratamento após um episódio acidental, onde alguns médicos militares pensaram que pudesse ser utilizado para tratar cancros. E desde então temos confiado nessa solução para nos tratarmos (que remédio!).

No que diz respeito à imunoterapia e à utilização das vacinas de cancro, alguns avanços recentes reforçam um clima de progresso e esperança nesta terapêutica:

  • O Prémio Nobel da Medicina de 2011 foi atribuído a Bruce A. Beutler e Jules A. Hoffman “pelas suas descobertas relacionadas com a ativação da imunidade inata” assim como a Ralph M. Steinman “pela sua descoberta das células dendríticas e o seu papel na imunidade adaptativa”.
  • A FDA aprovou duas imunoterapias: a sipuleucel-T (Provenge, Dendreon), a primeira vacina de cancro para o cancro da próstata metastizado, em 2011; a ipilimumab (Yervoy, Bristol-Myers Squibb), um anticorpo antagonista indicado para o tratamento de melanoma mestastizado, em 2011.
  • A farmacêutica americana PhRMA, identificou 102 vacinas para o cancro em desenvolvimento, 18 das quais encontram-se atualmente na fase III dos estudos clínicos (a última antes da aprovação):

“Existe hoje um enorme entusiasmo pelas vacinas de cancro partilhado por investigadores, médicos e pacientes”, diz Elizabeth Mittenford, professora no departamento de cirurgia oncológica da Universidade do Texas MD Anderson. “O contributo de Ralph Steinman não pode ser substimado. O seu trabalho com as células dendríticas, as células apresentadoras de antigénio mais eficientes do sistema imunológico, é fundamental para o campo da imunoterapia”, acrescenta. A Dra. Mittenford é a investigadora principal do PRESENT, um estudo clínico de fase III, atualmente a recrutar voluntários para uma vacina de cancro da mama (E75). A vacina destina-se a mulheres com cancro da mama em fase precoce e o objetivo será a prevenção de recidiva. O estudo prolongar-se-à até 2022.

Existem pelo menos 14 plataformas diferentes para a criação destas vacinas a serem utilizadas em inúmeros estudos clínicos atualmente. Estas incluem péptidos/proteínas, vetores recombinantes, células do tumor e células dendríticas. Cada uma delas tem forças e fraquezas influenciadas por vários fatores associados aos vários tipos de cancro, tal como as descreve Jeffrey Schlom, investigador do National Cancer Institute. Jeffrey acrescenta que a eficácia das vacinas pode ser limitada pela “profunda influência do microambiente do tumor”. Este dado reforça a idéia da importância que tem trabalharmos com o “terreno” orgânico no sentido de criar piores condições para o desenvolvimento do tumor. A alimentação tem aqui uma importância central, uma vez que inúmeras substâncias presentes nos alimentos de origem vegetal interferem com os mecanismo biológicos associados ao cancro. Por outro lado são agentes de reforço das defesas naturais do organismo, aquelas que servem de base para as vacinas de cancro. Parece evidente que no futuro se tenha de conjugar estes tratamentos com uma orientação alimentar bem delineada.

Uma das diferenças principais entre as vacinas de cancro e os agentes quimioterapêuticos é que nas primeiras não se “trata o cancro, mas sim a pessoa”, diz-nos Jill O’Donnel-Tormey, diretora dos Assuntos Científicos do Cancer Research Institute. O Instituto está atualmente a trabalhar no desenvolvimento de um antigénio específico que se pode encontrar em vários tipos de cancro (NY-ESO-1). A vacina com base neste antigénio será testada juntamente com o ipilimumab num estudo clínico de fase I com início previsto no final de 2012 em 4 instituições diferentes: o Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, a Universidade de Virigínia, A Universidade de Pittsburg e a Universidade de Nova Iorque.

a Dra. Mittenford arrisca uma previsão dizendo que das vacinas atualmente em estudo clínico de fase III, será a que utiliza o antigénio MAGE-3A conhecida agora por astuprotimut-R (GlaxoSmithKline) a que terá mais hipóteses de se tornar a próxima vacina disponível no mercado, para o tratamento de cancro do pulmão de não-pequenas células. Já Jeffrey Schlom aposta na PROSTVAC, a recrutar atualmente voluntários para um estudo clínico de fase III de pacientes cujos cancros da próstata tenham recidivado após cirurgia ou radioterapia.

Embora a utilização das vacinas para o tratamento do cancro tenha separado muitas das vezes a comunidade médica em duas margens: aqueles que acreditam no seu potencial e aqueles que duvidam, tudo leva a crer que a evolução se faça positivamente nos próximos tempos. De acordo com o serviço de analistas de negócios GlobalData o valor da indústria das vacinas chegará aos 7.1 mil milhões de dólares em 2018, representando um crescimento anual de 20%. O setor das vacinas terapêuticas em particular estima-se que cresça até 78% até 2018.

A 19 de Setembro de 2012, atendendo ao facto de já existirem várias vacinas de cancro em estudos clínicos de fase III, a FDA vai-se reunir numa sessão aberta para discutir assuntos relacionados com a produção destas vacinas. Alguns entusiastas falam de uma nova e revigorada era de vacinas de cancro. Esperemos todos que se confirme este progresso em nome de tratamentos mais seletivos e centrados na pessoa individual.

Referências:

http://www.chemotherapyadvisor.com/reinvigorated-interest-in-immunotherapy-heralds-new-era-for-cancer-vaccines/article/254849/

http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/2011/

http://www.fda.gov/BiologicsBloodVaccines/CellularGeneTherapyProducts/ApprovedProducts/ucm210012.htm

www.phrma.org/track-pdf.php?q=/sites/default/files/2251/vaccines2012.pdf

http://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT01479244

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22395641

http://www.cancerresearch.org/

http://www.bavarian-nordic.com/cancer/prostate-cancer/prostvac.aspx

http://www.globaldata.com/PressReleaseDetails.aspx?PRID=204&Type=Industry&Title=Pharmaceuticals+and+Healthcare

http://www.fda.gov/AdvisoryCommittees/Calendar/ucm312074.htm

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