A vitamina D, produzida pela exposição ao sol, poderá prevenir vários cancros

“Tanto o exercício em excesso ou insuficiente destrói a força de um indivíduo, assim como comer e beber em excesso ou de forma insuficiente destrói a saúde, enquanto que a quantidade certa produz, aumenta ou preserva-a. Assim também o é com a temperança, a coragem e outras virtudes. Torna-se claro portanto: em toda a nossa conduta é o meio que deve ser buscado”.

Aristóteles

Talvez uma das grandes dificuldades para a nossa cultura ocidental seja o meio-termo. Temos tendência em alternar entre dois extremos sem conseguir encontrar um lugar de integração. No Oriente, em algumas escolas de pensamento essa integração torna-se mais fácil por remeter o indivíduo para uma compreensão da natureza como uma relação criativa entre dois pólos complementares. Historicamente a construção da nossa identidade social e cultural tem sido feita através da oposição e pela afirmação do contrário. Em termos de saúde pública podemos ter um exemplo de uma relação de extremos pela forma como o sol tendo sido descrito como um agente de risco para o cancro (da pele). De facto, a pele quando exposta à radiação solar de forma prolongada e sem proteção adequada pode representar dano para o ADN das células da pele, o que pode degenerar em cancro, podendo este manifestar-se muitos anos após esse dano. Tomando este facto em consideração poderíamos concluir que para evitar cancro da pele devemos reduzir ao máximo a exposição solar ou fazê-la longe das horas de maior radiação e bem protegidos. Outro facto que devemos considerar será o papel da vitamina D na prevenção do cancro. Como sabemos a melhor fonte de vitamina D é o sol. A radiação em contacto com o colesterol presente na pele produz a vitamina que na realidade se trata de uma hormona esteróide. Atualmente reconhece-se que existe uma deficiência generalizada de vitamina D na população. Embora a deficiência desta vitamina esteja associada a problemas ósseos e fraturas, a sua relação com o risco de vários tipos de cancro é cada vez mais certa. A incidência de deficiência de vitamina D, combinada com a descoberta de risco elevado de vários cancros, sugere que níveis baixos desta vitamina podem contribuir para várias mortes prematuras de cancro do cólon, mama, ovário e próstata, entre outros.

Sendo a melhor fonte de vitamina D o sol, tudo o que diminua a transmissão de radiação UVB para a superfície da Terra ou que interfira com a penetração dessa radiação na pele afeta a síntese de vitamina D3. A melanina sendo muito eficaz a absorver radiação, quanto mais presente na pele menos eficaz também será a produção da vitamina. Por outro lado, um protetor solar com um fator de proteção 15 absorve 99% da radiação UVB, reduzindo assim em 99% a produção de vitamina D pela pele. Trinta minutos ou menos (consoante o tipo de pele, a latitude e a altura do ano) deverão ser suficientes para assegurar os níveis suficientes de vitamina D de forma a assegurar um fator preventivo. Nesta ligação podem encontrar um guia de exposição solar de forma a se obterem o máximo de benefícios. Em alguns casos pode ser necessário uma suplementação extra de vitamina D3. Para tal, um profissional de saúde adequado deve ser consultado.

O efeito protetor da vitamina D em relação ao cancro foi pela primeira vez proposto em 1980. Este estudo baseou-se na observação do facto de haver uma incidência maior de cancro do colon nas regiões de latitudes mais altas (mais longe do equador). Desde então muitos outros estudos têm sugerido haver uma relação inversa entre a exposição solar e vários tipos de cancro. Um análise recente dos estudos disponíveis mostrou haver uma relação inversa entre a exposição solar e pelo menos 15 tipos de cancro diferentes. Outro estudo sugere que pessoas que vivam em regiões com exposição solar elevada apresentam menor risco de cancro do pâncreas. De facto, segundo um estudo que avaliou os níveis de vitamins D como prognóstico do cancro do ovário, níveis baixos de vitamina D3 na altura de um diagnóstico de cancro poderão significar uma probabilidade inferior de sobrevivência a 5 anos. Resultados semelhantes levaram investigadores chineses a concluir igualmente que as taxas de mortalidade na China dos principais cancros são maiores quanto menos radiação UVB estiver disponível. O estudo sugere que a industrialização e uma exposição deficiente ao sol geralmente convergem.

Os mecanismos pelos quais a vitamina D pode interferir com o risco de cancro poderão ser vários: regulação de cerca de 200 genes responsáveis pelo controlo do crescimento e diferenciação celular; diminuição de risco da transformação de células saudáveis em malignas; inibição da proliferação das células de cancro; indução da apoptose; inibição da angiogénese; ação anti-inflamatória; além disso os seus benefícios poderão incluir o aumento da eficácia na reparação do ADN, proteção antioxidante e imunomodelação.

Dito isto, e à luz (solar) do que hoje temos disponível como evidência, parece sensato sugerir que passemos de uma política de “exponha-se o mínimo possível à radiação solar” de forma a reduzir o risco de cancro da pele, para outra de “faça um uso responsável do sol” de forma a provavelmente prevenir uma série de cancros. Os resultados de vários estudos apontam para para a probabilidade de que a exposição (responsável) à radiação UVB, através da produção de vitamina D na pele, é inversamente proporcional à taxa de mortalidade de vários cancros. As políticas anti-sol poderão ter de ser revistas de forma a se obter um benefício adequado na prevenção do cancro sem representar um risco acrescido de cancro da pele.

Reza a História que, certo dia enquanto o filósofo Diógenes tomava o seu banho diário de sol, Alexandre (o Grande) se terá aproximado e dito: “Sou teu grande admirador! Sendo assim, pede-me o que quiseres, e eu te darei”. Diógenes respondeu-lhe: “A única coisa que te peço é: não me faças sombra, devolve o meu sol!”

Recursos acerca da vitamina D:

http://www.grassrootshealth.net/

http://www.vitamindcouncil.org/

http://www.sunlightresearchforum.nl/cms/index.php

Referências:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1470481/?tool=pubmed

http://www.vitamindcouncil.org/about-vitamin-d/how-to-get-your-vitamin-d/

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7440046

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22213311

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0009912012004535

http://www.medicalnewstoday.com/releases/249113.php

http://www.ajcn.org/content/87/4/1080S.full#ref-77

http://circres.ahajournals.org/content/87/3/214.abstract?ijkey=b450f4015ca42afdd887aa5469804a33163ce3f3&keytype2=tf_ipsecsha

http://www.sciencedaily.com/releases/2012/02/120223103920.htm

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22168439

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16886679

http://www.diseaseproof.com/

http://www.landesbioscience.com/journals/dermatoendocrinology/article/19667/?show_full_text=true&

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