Substâncias presentes em vários alimentos poderão ajudar a controlar as metástases

“O Caráter é o Destino.”

Heráclito

Sim, o Destino existe. É o destino de cada ser humano criar o seu próprio destino. A relação entre o determinismo e o livre-arbítrio é um longo debate com raízes na Antiguidade. Essa discussão tem contornos mais modernos no papel da genética para a saúde humana. Estará tudo predefinido ao nível dos genes? Estará o nosso destino previamente inscrito no ADN, sem que possamos alterar essa sentença? Ao que parece, as decisões que tomamos, as escolhas que fazemos, alteram a expressão das predisposições genéticas. Tudo recai novamente sobre nós. Segundo a epigenética, as condições ambientais afetam e modificam a expressão dos genes. Um dos fatores que mais contribui para essa modificação é a dieta. Uma das razões pelas quais a epigenética é de grande importância para a prevenção do cancro tem que ver com o facto de que as modificações epigenéticas estão presentes em virtualmente todas as etapas da carcinogénese. Vários agentes bioativos, tais como a curcumina (açafrão-das-índias), genisteína (soja), catequinas (chá verde) ou o sulforafano (crucíferas), entre outros, são capazes de interferir com a expressão de genes importantes no desenvolvimento do cancro, genes que suprimem o cancro (ativando-os) e outros que promovem o seu desenvolvimento (inibindo-os).

A epigenética surge como uma importante e promissora área de investigação com um enorme potencial para desenvolver o conhecimento que temos na área da prevenção e tratamento do cancro. Uma das áreas menos estudadas no desenvolvimento do cancro é a forma como se produzem as metástases. São as metástases de um cancro e não o seu tumor primário que representam verdadeiramente uma ameaça para o doente. Recentemente um estudo realizado por um investigador da Washington State University identificou mais de 40 substâncias presentes em alimentos de origem vegetal com a capacidade de ativar os genes capazes de inibir a metastização do cancro. Gary Meadows, o autor, sente-se entusiasmado pela descoberta por considerar que a dieta, nutrientes e fitoquímicos poderão ser importantes armas no combate às metástases do cancro. O seu estudo centrou-se não tanto no tratamento do cancro primário mas na forma de controlar a sua invasão dos outros orgãos. Meadows analisou vários estudos e assinalou aqueles onde se os genes que inibem as metástases estavam ativos. No final, identificou dezenas de substâncias com a capacidade de afetar os genes supressores de vários cancros. Gary pôde verificar como substâncias como amino-ácidos, vitamina D, ginseng, licopeno, curcumina, sumo de romã, entre outros, afetam a expressão de genes em cancros como os da mama, colo-retal, próstata, pele ou pulmão. “Portanto, estes mecanismos epigenéticos são influenciados pelo que comemos”, afirma o investigador. “Esta é uma área nova de investigação que não tem sido muito bem explorada em termos de dieta e nutrição”.

Meadows considera que este estudo reforça dois conceitos:

  1. O papel central dos componentes naturais a ajudar o organismo a inibir ou parar as metástases do cancro.
  2. A mudança de uma ideia de prevenção de cancro para outra onde se vive com a doença mas impedindo-a de se espalhar.

Gary, além disso, refere uma das ideias mais importantes para a compreensão do cancro e da forma de o controlar. Cada vez mais se percebe a importância do microambiente no qual está inserido o tumor e do qual este depende para se desenvolver. As condições têm de ser favoráveis para que o cancro consiga reunir todas as necessidades energéticas e bioquímicas para suportar o seu crescimento e invasão. Desde os fatores de crescimento, até ao papel da inflamação e da angiogénese, sem esses mecanismos biológicos lhe serem favoráveis, tal como uma semente não poderá crescer e proliferar. Gary Meadows sublinha esta ideia ao dizer que “recentemente nós (os investigadores) começamo-nos a focar no cancro inserido no seu ambiente. O ambiente, o seu corpo inteiro como um ambiente, é realmente importante e determinante para a forma como o cancro se irá ou não espalhar”. São muitos os mecanismos químicos e epigenéticos afetados pelos alimentos. Embora estejamos ainda a dar os primeiros passos nesta nova ciência da nutrigenómica, esta mostra-se muito promissora e lembra-nos continuamente que cada escolha que fazemos tem implicações no nosso destino. Um prato é um micro-universo de escolhas com implicações profundas para o nosso futuro.

Referências:

http://www.springerlink.com/content/4218t406w8708338/

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3024548/

http://www.sciencedaily.com/releases/2012/08/120827152050.htm

3 responses to “Substâncias presentes em vários alimentos poderão ajudar a controlar as metástases

  1. Obrigada Gabriel poe estes artigos fantástics.Há 4 anos que fui operada á mama e agora prestes a fazer uma Pet Scan(duvidas quanto a metásteses)pergunto se valerá a pena continuar a fazer isto,pq parece que tudo o que teho feito ficou sem sentido.

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