Estudo mostra não haver benefícios em produtos biológicos. Será?

Estará o copo meio cheio ou meio vazio? Os cabeçalhos de várias agências noticiosas têm sido invadidos por uma descoberta que a confirmar-se poderá ser um golpe final no debate acerca dos benefícios prováveis de consumir produtos biológicos. Os títulos não deixam dúvidas: “Comida biológica não é mais nutritiva do que a convencional, descobre um estudo“; “Alimentos biológicos não são mais seguros nem nutricionalmente superiores aos convencionais“. Temos também outros artigos que tentam não escorregar para uma chamada sensacionalista ao assunto: “Cientistas de Stanford lançam dúvidas sobre as vantagens da carne e produtos biológicos“. Segundo o New York Times, não se trata de uma resposta definitiva mas uma perspectiva que não resolve o problema e levanta algumas dúvidas. De qualquer forma  seria necessário avaliar exatamente o que diz o estudo e em que termos para tirarmos as nossas próprias conclusões. Comecemos pelo fim do estudo em causa, desenvolvido por investigadores da Universidade de Stanford:

Conclusão: “A literatura publicada não contém evidências fortes de que os alimentos biológicos sejam mais nutritivos do que os convencionais. O consumo de alimentos biológicos pode reduzir a exposição a resíduos de pesticidas e bactérias resistentes aos antibióticos”.

Em qual das metades da conclusão podemos nós pegar para fazer disso notícia? Podemos sublinhar a primeira parte e dizer algo do tipo: “Os alimentos biológicos não são melhores do que os convencionais”, ou então pegamos na segunda parte e dizemos: “Confirma-se que consumir produtos biológicos reduz a exposição a químicos potencialmente tóxicos assim como a bactérias perigosas”. Afinal o que leva um indivíduo a procurar um produto biológico? Antes de tudo, o principal motivo é justamente o de evitar a exposição a substâncias que poderão estar na origem de diversos problemas de saúde, nomeadamente em períodos críticos como a infância ou a gravidez. Alguns estudos publicados nos últimos dois anos mostram haver uma relação entre a exposição a pesticidas organofosforados e um risco superior de ADHA (défice de atenção e hiperatividade) assim como um QI inferior nas crianças. Segundo o presidente da EWG “os autores deste estudo, por alguma razão, decidiram não focar nesta nova e perturbante pesquisa que mostra que uma dieta com alimentos com níveis altos de certos pesticidas poderá representar um impacto muito sério e definitivo nas crianças”. No ano passado, um grupo de autoridades mundiais em saúde ambiental, enviou uma carta à Administração Obama pedindo que o governo amplie os testes feitos aos resíduos químicos nos alimentos.

De seguida analisemos o método do estudo em si. Várias notícias deram anunciaram que não haveria benefícios para a saúde do consumo de alimentos de origem biológica. No entanto dificilmente essa seria uma conclusão do próprio estudo, uma vez que apenas 17 dos 240 estudos avaliados pelos investigadores envolvem sujeitos humanos. Todos os outros examinaram os níveis de nutrientes e de pesticidas presentes nos alimentos. Desses 17, apenas 3 envolveram questões relacionadas com a saúde, nomeadamente eczemas ou reações alérgicas. Pela amostra que temos, dificilmente se poderia chegar a conclusões sólidas sobre o impacto para a saúde do consumo de alimentos biológicos ou convencionais.

Outro dos resultados do estudo dá-nos conta de que não existem diferenças significativas na concentração de nutrientes entre os dois tipos de alimentos. No entanto, Charles Benbrook, especialista da Universidade de Washington tendo revisto o estudo em causa e toda a sua literatura, tem uma posição diferente: “Vários estudos bem desenhados mostram que alimentos biológicos têm concentrações superiores de antioxidantes e vitaminas. Alimentos como maçãs, morangos, uvas, tomates, leite, cenouras e cereais têm níveis 10 a 30% superiores de vários nutrientes, incluindo vitamina C, antioxidantes e ácidos fenólicos na maior parte dos estudos”. Além disso, este estudo de Stanford contradiz os resultados do que muitos consideram a análise mais definitiva da literatura científica acerca dos níveis de nutrientes nos alimentos biológicos.

Mas quais são afinal as conclusões a que chega o estudo?

  1. Não existem evidências suficientes para suportar a afirmação de que os alimentos orgânicos tenham níveis superiores de vitaminas, minerais ou outros nutrientes. Será?
  2. Os autores confirmaram a existência de níveis superiores de fenóis nos produtos orgânicos. Este ponto é particularmente importante e só por si, faria um bom cabeçalho de notícia: “Novo estudo confirma que produtos biológicos são mais ricos em substâncias anticancerígenas”. Afinal, o estudo confirma aquilo que outros também o fazem e que já se desconfiava: os vegetais de origem biológica têm uma concentração superior de fitoquímicos, as substâncias químicas que protegem as plantas das agressões externas e que têm inúmeras propriedades quimiopreventivas para a saúde humana.
  3. O leite e as aves de origem biológica têm concentrações superiores de ómega-3. Mais um resultado com imensas implicações para a saúde. Os ácidos gordos ómega-3 não só são importantes para a função cardíaca e o desenvolvimento do cérebro da criança, pelas suas propriedades anti-inflamatórias tem provavelmente um papel importante na prevenção do cancro.
  4. Os vegetais e frutos convencionais estão mais contaminados de pesticidas, estando no entanto abaixo dos limites impostos pelo governo dos EUA. É muito difícil definir com segurança um limite de segurança para a exposição a estes químicos. Não existem ainda estudos suficientes para se saber com segurança os efeitos dessa exposição, especialmente no que diz respeito a grupos mais vulneráveis. Sabe-se por exemplo que agricultores que estejam frequentemente expostos aos pesticidas têm um risco superior de cancro do que o resto da população. Será sensato, por uma questão de precaução reduzir ao máximo essa exposição. Por outro lado, os níveis desses produtos nos alimentos não são homogéneos, variando de prosuto pata produto. A EWG criou uma lista dos alimentos considerados mais contaminados e aqueles que não têm níveis tão elevados de pesticidas.
  5. Animais de origem biológica têm menos contaminação de bactérias que resistem aos antibióticos. Este parece ser mais um daqueles pontos que dificilmente deixa de representar uma vantagem para a saúde. Segundo o estudo, os consumidores de animais criados de forma convencional têm 33% mais hipóteses de ingerir bactérias que podem representar risco para a saúde.

Em última análise o que realmente importa quando optamos por produtos biológicos não é tanto o que têm, mas o que não têm. Este estudo vem afinal dizer-nos que se confirma haver uma menor exposição a pesticidas consumindo esses produtos. Mas mesmo no que têm, o estudo não considera haver benefícios no facto de estes alimentos terem concentrações superiores de fitoquímicos, as substâncias com maior potencial anticancerígeno presente nos vegetais. Se optarmos por olhar o copo cheio, podemos ver como no final de contas este estudo traz-nos boas novas, embora inconclusivas, motivando-nos certamente a consumir alimentos mais ricos em  e menos contaminados.

Referências:

www.ewg.org

http://annals.org/article.aspx?articleid=1355685

http://www.ewg.org/release/organic-produce-reduces-exposure-pesticides-research-confirms

http://blog.aicr.org/2012/09/05/is-organic-more-cancer-protective-and-does-it-matter/

http://www.foodpolitics.com/2012/09/are-organics-more-nutritious-again-sigh/

http://www.ewg.org/foodnews/summary/

http://www.msnbc.msn.com/id/48888214/ns/health-diet_and_nutrition/#.UEdn1qTyZy4

http://www.medicalnewstoday.com/articles/249848.php

http://www.nytimes.com/2012/09/04/science/earth/study-questions-advantages-of-organic-meat-and-produce.html

http://www.environmentalhealthnews.org/ehs/newscience/2012/01/2012-0223-chemicals-iq-loss-similar-to-disease

http://www.ewg.org/chemindex/term/438

http://static.ewg.org/pdf/Pesticide_Testing_Letter.pdf

http://phys.org/news/2011-05-fruit-vegetables.html

http://preventcancer.aicr.org/site/PageServer?pagename=elements_phytochemicals

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