1+1=3, efeitos sinergéticos entre os alimentos

O todo é maior do que a simples soma das suas partes.”

Aristóteles

Uma das razões pelas quais tem sido difícil encontrar consensos em relação ao papel da alimentação na saúde deve-se à enorme complexidade bioquímica de um só alimento. Todo o nosso método de estudo está orientado para uma abordagem reducionista onde se procura isolar um elemento cujas propriedades, quando conhecidas, espera-se que possam ser benéficas para tratar ou evitar um problema de saúde. No entanto, as pesquisas têm mostrado que os benefícios atribuidos aos vegetais enquanto eficazes agentes anticancerígenos, não podem ser reduzidos a um só composto, mas antes à sinfonia de compostos que agem e interagem entre si. Não só são muitos os mecanismos biológicos responsáveis pelo desenvolvimento do cancro, como também existe uma ação sinergética entre as várias substâncias que compõem um ou vários alimentos e que afetam a sua ação química. Embora existam substâncias químicas capazes de interferir com vários processos relacionados com o cancro, tais como a apoptose, a angiogénese, a expressão de genes ou a inflamação, nem sempre quando se isola um desses químicos se observam os mesmos benefícios. Este processo de isolar e aplicar um componente de forma isolada, obedece a um processo orientado para uma abordagem farmacológica, onde se procuram moléculas sintetizáveis em laboratório, passíveis de serem posteriormente comercializadas. Para ilustrarmos este princípio tome-se como o exemplo um estudo no qual se buscou conhecer a ação protetora de suplementos de beta-caroteno no cancro do pulmão. Uma vez que várias pesquisas mostraram que o consumo de vegetais e frutos verdes e amarelos, por serem ricos em beta-caroteno, pensou-se que este fitoquímico pudesse ser quimiopreventivo quando tomado em forma de suplemento. No estudo em causa, os fumadores não obtiveram nenhum benefício do suplemento alimentar chegando mesmo a observar-se um aumento na incidência de cancro do pulmão.

Várias razões contribuem para a importância do alimento completo para uma dieta quimiopreventiva:

  • A interação entre nutrientes e substâncias: vários estudos mostram como a interação de certas moléculas potencia os seus efeitos. Esta sinergia pode acontecer entre os componentes de um alimento ou entre vários alimentos diferentes.
  • Os vários mecanismos associados ao desenvolvimento do cancro: uma vez que nenhum alimento contém, só por si, todas moléculas que possam agir sobre todos esses processos, será necessário combinar vários alimentos e garantir que várias moléculas diferentes, com um espectro grande de ação sobre os mecanismos do cancro estejam presentes numa refeição. Trata-se de “quanto mais melhor”.
  • Existem milhares de fitoquímicos nos alimentos vegetais, sendo uma grande parte deles desconhecidos, os quais podem ter propriedades importantes na quimioprevenção ainda por descobrir.

Como sabemos, no desenvolvimento do cancro estão implicados inúmeros processos biológicos. Os fitoquímicos presentes nos alimentos vegetais têm a capacidade de interferir nesses mecanismos evitando ou impedindo que os tumores se desenvolvam. Certos alimentos têm uma concentração previligiada destes compostos, devendo por isso ocupar uma base diária da nossa dieta, como protagonistas principais. Se combinarmos vários desses alimentos numa só refeição, então temos um verdadeiro exército pronto a reduzir as hipóteses de uma comunidade de células de cancro poder desenvolver-se, ou pelo menos não terá a sua vida facilitada enquanto tenta. São muitos os alvos biológicos destas moléculas:

Atividade antioxidante
    Eliminação de radicais livres e redução de stress oxidativo
Inibição da proliferação das células
Indução da diferenciação celular
Inibição da expressão de oncogenes
Indução da expressão de genes supressores de tumor
Indução da paragem do ciclo celular
Indução da apoptose
Inibição de vias de sinalização
Indução de enzimas e melhoria da desintoxicação
    Enzimas de Fase II
    Glutationa peroxidase
    Catalase
    Superóxido dismutase
Inibição de enzimas
    Enzimas de Fase I (bloqueio da ativação de substâncias cancerígenas)
    Ciclooxigenase-2
    Sintase do óxido nítrico
    Xantina oxidase
Melhoria das funções imunológicas e vigilância
Antiangiogénese
Inibição da adesão celular e invasão
Inibição da nitrosação e nitração
Prevenção de ligação ao ADN
Regulação do metabolismo de hormonas esteróides
Regulação do metabolismo do estrogénio
Efeitos antibacterianos e antivirais

Será fácil de compreender a necessidade que existe em garantir a máxima diversidade possível de alimentos ricos em substâncias capazes de interferir com estes mecanismos, sendo igualmente importante conjugá-los em simultâneo. Por exemplo, uma contribuição em legumes crucíferos e em legumes da família do alho ajuda o organismo a eliminar substâncias cancerígenas reduzindo a sua capacidade de provocar mutações no ADN e de favorecer a aparição de células cancerígenas. Por outro lado, o consumo de chá verde, de frutos silvestres e de soja evita a formação de novos vasos sanguíneos necessários ao crescimento de micro-tumores, permitindo mantê-los num estado latente. O açafrão-das-Índias além de induzir a apoptose é um eficaz e poderoso anti-inflamatório, aumentando a sua eficácia se for consumido com pimenta-preta e gengibre. Além disso, os fitoquímicos presentes nas crucíferas e noutros vegetais alteram a expressão dos genes responsáveis pela inibição do desenvolvimento do tumor. Podemos facilmente ver como uma estratégia de combate ao cancro passa pelas várias frentes que o atingem e como os alimentos são autênticas baterias de assalto a dezenas de alvos diferentes.

Além desta enorme conjugação de fatores afetados pela variedade de alicamentos (alimentos com propriedades anticancerígenas) é também determinante a sinergia entre os vários componentes que os compõem. Podemos dar alguns exemplos para ilustrar este princípio:

  • A curcumina, fitoquímico presente no açafrão-das-Índias tem uma biodisponiblidade muito baixa, ou seja, é pouco assimilado pelo organismo sendo rapidamente eliminado. Esta molécula tem inúmeras propriedades anticancerígenas tais como: inibição da inflamação, indução da apoptose, inibição da angiogénese, entre outras. Quando consumido com pimenta-preta, a sua biodisponibilidade aumenta de forma significativa.
  • Da mesma forma, as propiedades anti-inflamatórias desta especiaria vêm-se aumentadas quando consumida juntamente com gengibre.
  • A curcumina interage sinergéticamente com outros polifenóis tais como: a genisteína da soja ou a EGCG do chá verde.
  • O licopeno é um antioxidante natural responsável pela cor vermelha de alguns frutos e legumes, tais como: o tomate, a melancia e a batata-doce. Estudos epidemiológicos mostram que o seu consumo está inversamente relacionado com a incidência de vários cancros, em particular o cancro da próstata. Um estudo clínico de fase II sugere que o consumo de produtos ricos em licopeno e soja é mais eficaz a diminuir os níveis de PSA do cancro da próstata do que quando consumido individualmente.
  • Um estudo sugere que quando consumidos em simultâneo, tomates e brócolos são mais eficazes a inibir o crescimento do cancro da próstata. Além disso, os tomates quando cozinhados com um pouco de azeite possibilitam uma maior absorção dos seus fitoquímicos.
  • Vários estudos epidemiológicos sugerem que o chá verde pode ser eficaz a prevenir vários tipos de cancro. O principal componente responsável pelas suas propriedades anticancerígenas é um polifenól chamado epigalocatequina-3-galate (EGCG). Quando consumido com vitamina C (como o sumo de limão), as catequinas presentes no chá são melhor absorvidas pelo organismo.
  • As crucíferas são uma fonte rica em fitoquímicos com propriedades anticancerígenas. Alguns deste fitoquímicos aumentam a eficácia das enzimas de fase II, responsáveis pela eliminação de substâncias cancerígenas do organismo. Um estudo sugere que dois desses fitoquímicos, o I3C e o Crambene são mais eficazes quando estão ambos presentes.

Além disso, certos fitoquímicos parecem ter um efeito potenciador de alguns tratamentos de cancro:

A única forma de garantirmos que beneficiamos da imensa complexidade de atores desta sinfonia será obtermos os componentes presentes nos alimentos completos e usufruirmos da orquestra inteira, evitando assim isolar um dos seus instrumentos, o qual sozinho pouco poderá fazer pela nossa condição. Um prato deverá conseguir conjugar aqueles alimentos que se destacam pelas suas propriedades. Pelas suas interações sinergéticas obtemos uma refeição verdadeiramente poderosa a impedir que células mutantes se desenvolvam e provoquem estragos no organismo. Conseguimos uma verdadeira Sinfonia Anticancro.

Referências:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2690394/

http://jn.nutrition.org/content/134/12/3479S.full#corresp-1

http://jn.nutrition.org/content/134/12/3479S/T1.expansion.html

http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM199605023341802

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17999464

http://lpi.oregonstate.edu/infocenter/phytochemicals/curcumin/

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9168916

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9525275

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17927495

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http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9795966

http://www.medindia.net/news/Complementing-Green-Tea-With-Lemon-Boosts-Antioxidants-29335-1.htm

http://preventcancer.aicr.org/site/News2?page=NewsArticle&id=9329&news_iv_ctrl=0&abbr=res_

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18546267

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17440100

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15883009

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15298755

One response to “1+1=3, efeitos sinergéticos entre os alimentos

  1. Olá…
    Isso é tão errado como fazer estudos de toxicidade a apenas um ingrediente, por exemplo num pesticida…
    O pior é que existem muitos poucos cientistas a estudar os efeitos cumulativos dos vários químicos quando entram em contacto uns com os outros… E na maioria dos poucos casos estudados, o resultado é sempre uma “surpresa” desagradável…
    Abr

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