Inflamação e cancro: achas para a fogueira

Uma das razões pelas quais o cancro se torna uma doença tão complexa e difícil de combater, tem a ver com facto de se desenvolver a partir das nossas próprias células, as quais adquirem um comportamento marginal ao equilíbrio necessário para a integridade da saúde física. As células tornam-se delinquentes e de forma astuta buscam todos os meios para poderem sobreviver, proliferar e conquistar. Para tal, exploram todos os mecanismos naturais do organismo para seu próprio proveito, desviando-os das suas funções originais de forma a servirem os seus próprios interesses. Poderíamos dizer que aquelas que antes se comportavam de forma altruísta, movidas pelo desejo de servir um bem-comum, passam a um registo individualista, centradas na sua própria sobrevivência, não olhando a meios para atingir os seus fins. Qualquer semelhança com o comportamento humano nas nossas sociedades cujos modelos socio-económicos são regidos pela cupidez e interesse de alguns, poderá ser mais do que mera coincidência. Em jeito de analogia poder-se-ia dizer que se trata de uma espécie de capitalismo orgânico.

Um dos mecanismos naturais do organismo desviados pelos interesses particulares de um cancro, é a inflamação. Ainda no primeiro século, o romano Celso definia a inflamação como sendo caracterizada pela presença de dor, calor, rubor e tumor. Estes sinais são sintomas de uma série de acontecimentos biológicos que têm lugar no local onde tenha existido uma lesão ou infeção. A inflamação é uma resposta do sistema imunológico quando existe uma infeção, irritação ou lesão dos tecidos. Trata-se de um evento localizado e transitório. Este fenómeno é essencial para a integridade do organismo, sem ele ficaríamos  mercê de inúmeros agentes patógenos presentes no ambiente. O problema surge quando a inflamação se torna demasiado intensa ou quando occorre durante muito tempo, tornando-se de natureza crónica.

Durante o processo inflamatório, uma hoste de substâncias químicas com variadas funções são produzidas no local no sentido de impedir alguma infeção e promover a reparação dos tecidos lesados. Um tipo especial de glóbulos brancos, os macrófagos, são atraídos para o local e libertam moléculas muito reativas, responsáveis pela vermelhidão associada à inflamação, com o objetivo de eliminar possíveis agentes patógenos que tentem invadir o organismo. Por outro lado segregam fatores de crescimento que promovem o desenvolvimento dos tecidos e a formação de novos vasos sanguíneos. Além disso, estas substâncias transmissoras tornam o tecido circundante permeável para permitir uma circulação facilitada às células imunitárias. São todos estes fatores que podem criar um ambiente favorável ao crescimento de tumores, particularmente se no tecido inflamado existirem micro-tumores, os quais oportunamente poderão explorar estes mecanismos em seu proveito.

O patologista alemão Richard Virchow seria o primeiro ainda na segunda metade do século XIX a sugerir uma ligação entre os processos inflamatórios e o desenvolvimento do cancro. Virchow identificou a inflamação como um fator que predispõe a carcinogénese. Essa ligação não seria devidamente explorada até recentemente ter ressurgido o interesse em percebê-la melhor. Em 1986, o Dr. Harold Dvorak, Professor de Patologia na Harvard Medical School escrevia um artigo onde apresentava argumentos que apoiavam a teoria inicial de Virchow. O título do artigo, “Feridas que não curam”, denota a semelhança que existe entre os processos naturais da inflamação e os mecanismos biológicos do cancro. Ao contrário de uma ferida que ativa um mecanismo transitório de defesa, o cancro encontra maneira de perpetuar esse estado de forma a desenvolver-se. Com o objetivo de impedir que os processos inflamatórios cessem, as células de cancro produzem moléculas inflamatórias fazendo com as células inflamatórias continuem a libertar fatores de crescimento, contribuindo para a sua própria proliferação; enzimas, permeabilizando os tecidos circundantes e facilitando a sua expansão para outras áreas do organismo e moléculas angiogénicas, contribuindo para a formação de vasos sanguíneos que compõem assim uma eficaz rede de abastecimento para as suas necessidades energéticas.

São vários os genes que participam na expressão de todas estas moléculas, tais como o TNF, IL-1alpha, IL-1beta, IL-6, IL-8, IL-18, quemoquinas, MMP-9, VEGF, COX-2, e 5-LOX. Por outro lado estes genes são controlados por um único fator molecular, o NF-kB. Esta proteína foi inicialmente identificada em 1986. A sua importância passa por ser responsável pela expressão de mais de 400 genes que estão envolvidos na supressão da apoptose e indução da proliferação, invasão, metástases, resistência aos tratamentos e inflamação. Quando ativado, o NF-kB está envolvido no desenvolvimento de várias doenças, incluindo o cancro. Alguns autores defendem que este fator de transcrição e os mecanismos por ele regulados representa o fator-chave que explica a relação entre a inflamação e os fatores de risco e protetores em relação ao cancro. Enunciam algumas razões fortes para isso, tais como:

  • A maior parte dos agentes cancerígenos e fatores de risco (fumo do cigarro, obesidade, hiperglicémia, agentes infecciosos, stress, substâncias cancerígenas nos alimentos, poluição ambiental) ativam o NF-kB.
  • Na maior parte das células de cancro o NF-kB encontra-se ativado.
  • A maior parte dos tratamentos utilizados para o tratamento do cancro levam a ativação do NF-kB.
  • A ativação do NF-kB está relacionada com a resistência aos tratamentos.
  • A supressão do NF-kB inibe a proliferação dos tumores, leva à apoptose, inibe a invasão e suprime a angiogénese.
  • Grande parte dos agentes quimiopreventivos inibem a ativação do NF-kB.

Este produção de substâncias e moléculas inflamatórias e a ativação do fator de transcrição NK-kB, leva a uma círculo vicioso no qual os fatores de crescimento produzidos pelos macrófagos são utilizados pelas células de cancro para sobreviverem e crescerem. Estas células ao crescerem produzem mais moléculas inflamatórias levando a um aumento de macrófagos. Ao criar um ambiente rico em fatores de crescimento e perpetuando a sua presença no seu ambiente, as células inflamatórias garantem as condições que permitem as células de cancro crescerem e desenvolverem-se.

Embora a inflamação aguda seja um mecanismo natural e até desejável para controlar uma infeção ou reparar tecidos danificados, torna-se indesejável quando se instala como uma condição crónica. Já vários fatores de risco foram anunciados como impulsionadores dessa situação, mas a dieta ocupa um papel central e determinante para a gestão dos níveis inflamatórios no organismo. O consumo excessivo de alimentos processados, de índice glicémico elevado, com gorduras prejudiciais (saturadas e hidrogenadas) associado a uma ausência de alimentos de origem vegetal, ricos em moléculas anti-inflamatórias e gorduras saudáveis, traduz-se por uma ambiente orgânico pró-inflamatório com as respetivas consequências para a saúde.  Alguns alimentos e nutrientes pró-inflamatórios:

  • Gorduras saturadas (de origem animal) e hidrogenadas: vários estudos epidemiológicos mostram haver uma relação entre o consumo destas gorduras e um aumento dos marcadores de inflamação. Segundo um destes estudos, existe uma relação mais acentuada entre níveis superiores de inflamação e o consumo de alimentos como carnes vermelhas e processadas, produtos lácteos gordos e batatas fritas.
  • Hidratos de carbono simples: o consumo de alimentos de índice glicémico elevado (quando consumidos aumentam rapidamente os níveis de açucar no sangue) pode levar a uma hiperglicémia, a qual causa inflamação através da produção de radicais livres e citoquinas pro-inflamatórias. O consumo de açúcar e farinhas refinadas estão associados a um aumentos dos marcadores de inflamação.
  • Colesterol: uma dieta rica em colesterol, como o que se encontro nos ovos, está associada a um aumento dos níveis inflamatórios. Por outro lado, uma dieta pobre em colesterol diminui os marcadores de inflamação.
  • Obesidade: a obesidade está associada a níveis elevados de inflamação crónica.

A dieta ocidental é caracterizada por um excesso de consumo de alimentos como os acima referidos e um consumo deficiente de alimentos de natureza anti-inflamatória. Alguns exemplos:

  • Flavonóides: os flavonóides são fitoquímicos presentes em vários vegetais e frutos. Alguns estudos mostram que certos flavonóides têm propriedades anti-inflamatórias. Alguns exemplos: quercetina (cebolas amarelas e maçãs), genisteína (soja), catequinas (chá verde), apigenina (salsa, aipo).
  • Aminoácidos: o consumo de arginina está associado a índices de inflamação inferiores. Os frutos secos, em particular os amendoins, são ricos neste aminoácido.
  • Carotenóides: os carotenóides são fitoquímicos responsáveis pela cor vermelha, laranja e amarela de vários vegetais e frutos. Um estudo mostrou propriedades anti-inflamatórias através da inibição do fator NF-kB. Alimentos ricos em beta-caroteno são por exemplo as cenouras, a abóbora ou os brócolos. Outro carotenóide, o licopeno, presente em alimentos como o tomate ou a melancia, também apresenta uma atividade anti-inflamatória em alguns estudos.
  • Especiarias: alguns fitoquímicos presentes nas especiarias são poderosos anti-inflamatórios. Alguns exemplos: a curcumina, presente no açafrão-das-índias é um poderoso anti-inflamatório. Para ser biodisponível deve ser consumido em conjunto com a pimenta-preta. O gengibre, da mesma família, apresenta igualmente propriedades anti-inflamatórias. Outro alimento com ação anti-inflamatória é o alho.

Além destes e de outros componentes presentes nos alimentos, o equilíbrio entre as substâncias anti-inflamatórias e pro-inflamatórias é grandemente influenciado pela relação entre duas classes de ácidos-gordos poli-insaturados: os ómega-3 e os ómega-6. Estes dois ácidos-gordos são indispensáveis para uma série de funções orgânicas: formação da membrana celular, desenvolvimento da atividade cerebral, elasticidade e rigidez dos vasos sanguíneos, expressão de genes, e a resposta inflamatória. No organismo os ómega-6 são tranformados em leucotrienos, moléculas pro-inflamatórias que promovem a coagulação e o crescimento celular. Os ómega-3 são convertidos em ácido docosahexaenoico (DHA) e ácido eicosapentaenoico (EPA), dois tipos de moléculas com propriedades anti-inflamatórias, anti-coagulantes e anti-proliferativas. O equilíbrio entre ómegas-3 e ómegas-6 através da dieta é assim fundamental para assegurar um controlo adequado dos processos inflamatórios. A conversão destes ácidos-gordos nas moléculas ativas dá-se através do mesmo sistema enzimático (desaturase). Isto significa que as mesmas enzimas competem pela sua conversão. Um excesso de ómegas-6 e deficiência de ómegas-3 cria condições para uma ambiente pro-inflamatório. O ideal é que se consiga uma relação de 1:1 no consumo de alimentos ricos nestes dois ácidos-gordos. Estima-se que atualmente a nossa dieta ocidental comum contribua para uma relação entre ómegas-6 e ómegas-3 de 20-30:1, ou seja consumimos de 20 a 30 vezes mais ómegas-6 do que ómegas-3. Alguns exemplos de alimentos ricos nestes componentes:

Ómega-6

  • Óleo de girassol
  • Sementes de girassol
  • Óleo de milho
  • Óleo de soja
  • Óleo de sésamo
  • Carnes e ovos (de animais alimentados a ração)

Ómega-3 (ALA)

  • Sementes e óleo de linhaça
  • Sementes de cânhamo
  • Sementes de chia
  • Nozes
  • Beldroegas

Para que se consiga um equilíbrio entre estes dois ácidos-gordos devemos conciliar um aumento de ómegas-3 com uma diminuição no consumo de ómegas-6, de forma a prevenirmos um ambiente orgânico cronicamente inflamatório. Por vezes pode ser útil uma suplementação extra de ómegas-3, uma vez que a conversão de ALA (na sua forma vegetal, de cadeia curta) para EPA e DHA é relativamente baixa.

O desenvolvimento do cancro dá-se na medida em que existam as condições certas para os seus múltiplos mecanismos biológicos. A sua dependência do micro-ambiente é por isso muito grande. Somos nós que através da alimentação e do estilo de vida podemos controlar esses fatores e diminuir as possibilidades que uma célula mutante venha a desenvolver-na na forma de um cancro maligno. A inflamação como vimos fornece vários recursos importantes para a sua sobrevivência e proliferação. O nosso ambiente e a nossa dieta comum ocidental é por isso o fator que mais contribui que para esta e outras doenças crónicas tanto aflijam as nossas vidas. Cabe-nos a nós deixarmos de ser os aliados destas células degeneradas e pormo-nos ao lado daquelas que trabalham pela nossa saúde e que por isso merecem toda a nossa dedicação. Manter os níveis inflamatórios no organismo é por isso um requisito básico para esse objetivo adotando uma dieta rica em vegetais e frutos e reduzindo muito o consumo de alimentos que favorecem e lançam achas para a fogueira da inflamação.

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