Substância presente nas crucíferas (couves) poderá ser eficaz no tratamento do cancro da mama triplo negativo

Dos vários tipos de cancro da mama, o triplo negativo é o mais difícil de tratar. Representando cerca de 15% dos casos de cancro da mama, este cancro é assim chamado pelo facto das suas células não apresentarem à superfície nenhum  dos três recetores habituais: estrogénios (hormona que promove o desenvolvimento das células de cancro), progesterona (outra das hormonas utilizadas pelas células de cancro para se desenvolverem) e herceptina (proteína que igualmente promove o desenvolvimento do cancro). O cancro da mama triplo negativo (CMTN) é o tipo mais agressivo de cancro da mama, crescendo rápido, espalhando-se mais cedo para outras partes do corpo, sendo mais difícil de detetar e recidivando mais frequentemente. Por esse motivo é um dos mais importantes candidatos a soluções mais eficazes do que aqueles atualmente disponíveis.

De uma maneira geral sabemos a partir de vários estudos epidemiológicos que o consumo de crucíferas (família de vegetais da qual fazem parte as couves e os brócolos) está associado a um risco inferior de vários tipos de cancro. Em relação ao cancro da mama essa associação é também suportada por vários estudos que o confirmam. Mesmo do ponto de vista da sobrevivência após o diagnóstico de cancro da mama, o consumo de crucíferas parece aumentar a esperança da vida e diminuir a probabilidade de recidiva.

Um estudo recente parece sugerir que um dos componentes destes vegetais, como os brócolos ou as couves de bruxelas, poderá vir a ser um agente de tratamento de cancro da mama triplo negativo, o que mostra a eficácia destas substâncias naturalmente presentes nas crucíferas. Trata-se do diindolilmetano (DIM), um metabolito do indol-3-carbinol, conhecido pelas suas propriedades anticancerígenas. Investigadores da Universidade A&M da Florida avaliaram a atividade de uma substância produzida a partir do DIM e verificaram a sua eficaz ação anticancerígena. O estudo sugere que estes compostos obtidos a partir do DIM poderão ser utilizados no tratamento de vários tipos de cancro, incluindo o cancro da mama triplo negativo. Além disso, está a ser investigada a sua aplicação quimiopreventiva. Segundo Mandip Sachdeva, um dos autores do estudo, “as opções de tratamento para o CMTN são limitadas. Os tratamentos atuais resultam em baixa adesão por parte do paciente e toxicidade elevada”. “Estamos confiantes que os componentes nos quais estamos a trabalhar representam um tratamento eficaz para o cancro da mama triplo negativo. Estes tratamentos são mais seguros para o paciente do que os atualmente disponíveis”, conclui Sachdeva.

Embora esta pesquisa esteja centrada no desenvolvimento de um homólogo químico do DIM, o facto é que estas moléculas encontram-se naturalmente presentes nas crucíferas, com acrescidos benefícios de muitas outras substâncias que atuam sinergicamente entre si. Os vegetais crucíferos, assim chamados pelo facto de a flor de cada um deles ter pétalas espaçadas simetricamente em forma de cruz, são uma fonte privilegiada de uma classe específica de fitoquímicos, os glucosinolatos. Quando as paredes das suas células se partem, ao serem esmagados ou cortados, dá-se uma reação química através da exposição à enzima mirosinase que transforma estes compostos em isotiocianatos (ITC), moléculas com uma ação anticancerígena poderosa e comprovada. Mais de 120 isotiocianatos foram identificados, todos com mecanismos de ação e benefícios distintos. A sua ação conjunta funciona como um autêntico exército de ataque a várias frentes, cada uma delas representando uma via bioquímica utilizada pelas células de cancro para se desenvolverem. A eficácia destas moléculas depende em grande medida da grande variedade da ações e efeitos que têm a das interações entre si.

Vários legumes crucíferos como os brócolos e as couves de bruxelas são ricos em glucobrassicina, o glucosinolato precursor do indol-3-carbinol (I3C). A mirosinase, uma enzima que cataliza a hidrólise dos glucosinolatos, está fisicamente separada destes nas células vegetais intactas. Quando estas células são quebradas, tal como acontece quando se corta, esmaga ou mastiga estes vegetais, a interação entre a mirosinase e a glucobrassicina resulta na formação de I3C. Num ambiente ácido como o estômago, as moléculas de I3C combinam-se umas com as outras formando componentes biológicos conhecidos por produtos de condensação de ácido. Um desses produtos é justamente o dindolilmetano (DIM). Quando a mirosinase é destruída (por exemplo através da cozedura em água fervente), a hidrólise dos glucosinolatos dá-se em grau inferior através da ação de bactérias intestinais. No entanto, pelo facto do meio intestinal ser alcalino, a formação de DIM torna-se inexistente. A forma como consumimos estes vegetais vai por isso determinar a disponibilidade destas moléculas e os seus efeitos correspondentes. A única forma de se garantir uma concentração elevada de DIM e de isotiocianatos dependentes da presença da enzima mirosinase será consumi-los crus, ou então na forma de germinados de brócolos, por exemplo, onde a concentração de glucosinolatos e mirosinase é de cerca de 50 a 100 vezes superior a um brócolo maduro.

O I3C e o DIM têm sido estudados pela sua capacidade em interferir positivamente no desenvolvimento de cancros hormono-dependentes, como o da mama. Vários mecanismos são afetados pela sua ação:

  • Atividade dos recetores de estrogénio: alguns estudos de laboratório mostram que o I3C tem a capacidade de inibir a transcrição de genes sensíveis ao estrogénio quando estimulados pelo estradiol.
  • Metabolismo do estrogénio: o estradiol é metabolizado em dois compostos diferentes – o 16-alfa-hidroxistrona e o 2-hidroxistrona. Enquanto o primeiro tem uma ação estrogénica muito elevada e estimula a proliferação das células de cancro sensíveis à hormona, o segundo tem uma ação contrária. Estudos mostram que o I3C aumenta produção de 2-hisdroxistrona e reduz a produção de 16-alfa-hidroxistrona, o que poderá diminuir o risco de cancro da mama de recetor de estrogénio positivo.
  • Ciclo celular: estudos em laboratório com células de cancro da mama e da próstata mostram que o I3C induz a interrupção do ciclo celular, permitindo que a reparação de eventuais danos no ADN sejam reparados ou que a célula danificada ative a apoptose.
  • Apoptose: Tanto o I3C como o DIM têm a capacidade de induzir a apoptose em vários tipos de cancro.
  • Invasão e Angiogénese: Alguns estudos sugerem que o I3C e o DIM tenham a capacidade de inibir a invasão de tecidos saudáveis por células de cancro e inibir o desenvolvimento de novos vasos sanguíneos necessários ao desenvolvimento do tumor (angiogénese).

Alguns exemplos de vegetais crucíferos ricos em glucosinolatos:

  • Brócolos
  • Couves de bruxelas
  • Couve-roxa
  • Couve-flor
  • Couve lombarda
  • Couve frisada
  • Couve galega
  • Agrião
  • Agrião do jardim
  • Rúcula
  • Couve-chinesa
  • Couve-rábano
  • Folhas de mostarda
  • Rábano
  • Grelos de nabo

Estes vegetais na forma de germinados têm uma concentração superior de glucosinolatos e mirosinase, além de serem consumidos crus. De forma a maximizar-se os benefícios das crucíferas deve ter-se em conta o método de preparação, uma vez que estes terão influência na quantidade de isotiocianatos produzidos a partir dos glucosinolatos. Uma vez que estes componentes são hidrossolúveis, cozê-los em água fervente entre 9 a 15 minutos resulta numa perda de 18 a 59% no conteúdo de glucosinolatos. Além disso, a ação da mirosinase, enzima responsável pela conversão de glucosinolatos em isotiocianatos e indóis, é desativada através do calor. Sendo assim, a sua ação fica comprometida em qualquer método de confeção que utilize o calor, quer se trate de cozer em água, a vapor ou em micro-ondas. Mesmo quando a mirosinase não está disponível existe alguma conversão dos glucosinolatos através da ação de bactérias do trato digestivo. No entanto a produção de isotiocianatos é menor. Uma vez que o DIM só se produz num meio ácido como o do estômago, dessa forma mesmo que exista alguma conversão em I3C no intestino, nenhum DIM será produzido.

Uma vez que a confeção de alimentos não destrói a atividade e funções dos isotiocianatos (ITC), se triturarmos, esmagarmos, cortarmos ou espremermos os vegetais em estado cru para maximizar a produção de ITC e depois os colocarmos num guisado ou sopa, continuaremos a ter os benefícios desses fitoquímicos, mesmo depois de cozinhados. Algumas dicas para melhor beneficiarmos das propriedades anticancerígenas das crucíferas:

  • Mastigar bem as crucíferas de modo a esmagar todas as células e libertar a mirosinase.
  • Cortar, triturar ou reduzir a puré todas as crucíferas antes de as juntarmos aos cozinhados.
  • Cozer em vapor ou saltear durante muito pouco tempo, o suficiente para ficarem al dente.
  • Consumir o máximo possível estes vegetais em estado cru, como em saladas. A forma mais eficaz de o fazer é consumindo os seus germinados.
  • Os sumos de vegetais feitos em casa são também uma forma eficaz de se obterem os seus benefícios.

Um exemplo de um prato confecionado de forma a se obterem benefícios quimiopreventivos:

Sopa de Miso com Crucíferas e Shitake

Ingredientes:

  • 1 colher de sopa de miso de cevada por pessoa
  • 1 tira de alga kombu (cortada em tiras finas)
  • 1 cebola-roxa (cortada em meias-luas finas)
  • 1 a 2 cenouras (cortadas em tiras finas)
  • 2 folhas de couve-roxa (cortadas em tiras finas)
  • 2 folhas de couve-lombarda (cortadas em tiras finas)
  • 2 folhas de couve-portuguesa (cortadas em tiras finas)
  • 2 folhas de couve-coração (cortadas em tiras finas)
  • 1 alho-francês (cortado no sentido longitudinal em tiras finas)
  • 8 cogumelos shitake frescos (cortados em lâminas)
  • Germinados de brócolos e alho-francês
  • 1 pedaço de gengibre ralado e espremido
  • Cebolinho
  • Sal q.b.
  • 1 fio de azeite virgem

Preparação: Cortar e deixar repousar as crucíferas durante cerca de 10 a 15 minutos antes de cozinhar. Colocar uma panela ao lume com água. Quando ferver deitar as cenouras, o alho francês, as crucíferas, os cogumelos, as algas (depois de demolhadas) e a cebola roxa. Deixar cozinhar até os legumes estarem cozidos, aproximadamente 15 minutos. De seguida, retirar uma concha da água da sopa e colocar numa tigela com a pasta de miso. Desfazer a pasta com a ajuda de uma colher até ficar homogéneo. Deitar a mistura na sopa e mexer bem. No fim colocar o cebolinho, o sal e não deixar a água ferver. Desligar o lume e deitar o sumo do gengibre mexendo sempre. Depois de servir a sopa colocar um punhado dos germinados já lavados e escorridos sobre o caldo com um fio de azeite. Pode acrescentar à receita tofu em cubos.

Receita desenvolvida com Patrícia Medeiros no âmbito dos Workshops de Alimentação Anticancro.

Salada “Panacéia de Fitoquímicos”

Ingredientes: 

  • Alface roxa
  • Rúcula
  • Couve chinesa
  • Couve lombarda
  • Couve roxa
  • Beterraba ralada
  • Cenoura ralada
  • Nabo ralado
  • Beldroegas
  • Espinafre “baby”
  • Germinados de brócolos
  • Germinados de alho francês
  • Hortelã
  • Salsa
  • Morangos
  • Feijão de soja “edamame”
  • Nozes partidas
  • Linhaça moída
  • Sementes de chia
  • Sementes de cânhamo
  • Sementes de abóbora
  • Bagas goji demolhadas

Preparação: Lavar tudo muito bem. Cortar e misturar todos os ingredientes. Servir temperado com azeite, shoyu e limão. Pode também fazer um molho com ervas aromáticas, iogurte de soja e vinagre de ameixa.

Outras sugestões: Misturar açafrão-das-índias e uma pitada de pimenta preta com azeite e acrescentar limão e shoyu. Juntar à salada.

Acompanhar com pesto de brócolos: Colocar num copo alto 1 chávena de azeite, 1 dente de alho, 1 mão cheia de amêndoas, uma árvore de brócolos, salsa, coentros, manjericão, tomilho-limão, 1 colher de chá de açafrão-das-índias, pimenta e sal. Triturar tudo com a varinha mágica.

Referências:

http://www.cancer.gov/cancertopics/wyntk/breast/page5

http://cebp.aacrjournals.org/content/5/9/733.full.pdf

http://lpi.oregonstate.edu/infocenter/foods/cruciferous/

http://www.diindolylmethane.org/

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22877795

http://www.mc.vanderbilt.edu/news/releases.php?release=2395

http://www.eurekalert.org/pub_releases/2012-10/aaop-sfv101112.php

http://lpi.oregonstate.edu/infocenter/phytochemicals/i3c/

http://lpi.oregonstate.edu/infocenter/phytochemicals/isothio/

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11110848?dopt=Abstract

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/1556774?dopt=Abstract

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http://cebp.aacrjournals.org/content/10/5/501.long

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11525594?dopt=Abstract

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http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9865427?dopt=Abstract

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