Placa bacteriana e periodontite poderão aumentar risco de cancro

“Pela boca morre o peixe”. A expressão não é bonita, mas contém uma série de verdades difíceis de contornar. Numa dimensão mais subjetiva, todos sabemos como o que dizemos e ouvimos uns dos outros pode ter um efeito poderoso sobre os nossos comportamentos. Comportamentos esses que se convertem em hábitos, os quais estão na base de muitos fatores de risco para a saúde e para o cancro especificamente. A boca é também o primeiro contacto com os alimentos os quais têm um papel fundamental na causa e resolução de vários cancros além de muitos outros problemas de saúde. A boca é por isso uma parte importante do nosso organismo onde muitas das atividades que determinam o nosso bem-estar têm lugar. Mas a importância da boca enquanto canal de passagem de substâncias potencialmente prejudiciais ou protetoras não termina por aí. A saúde da própria boca poderá estar relacionada com o risco de vários cancros, tal como as evidências disponíveis nos sugerem.

Placa bacteriana e cancro

De acordo com um estudo recente, uma má higiene oral, refletida pela quantidade de placa bacteriana presente nos dentes, está estatisticamente associada a um aumento de mortalidade por cancro. Para este estudo colaboraram 1390 jovens suecos, escolhidos aleatoriamente e acompanhados durante um período de 24 anos entre 1985 e 2009. Um total de 35 participantes morreram por causas relacionadas com cancro ao longo desse período. Depois de ajustados fatores que poderiam infleunciar os resultados, tais como: visita regular ao dentista, nível de educação, rendimentos, estatuto social e tabagismo, o estudo mostra haver 79% mais probabilidades de cancro nos indivíduos com mais placa bacteriana quando comparados com aqueles que apresentam níveis inferiores.

Resumidamente o estudo conclui que o estado da saúde oral aos 30 anos pode influenciar o risco de cancro até 24 anos após essas idades. Embora o estudo sugira existir uma correlação entre esses fatores, não prova haver uma relação causal, sendo para isso necessários outros estudos. No entanto conclui dizendo que a concentração elevada de bactérias na superfície dos dentes e nas bolsas gengivais durante um período prolongado de tempo poderá ter um papel na origem de certos cancros, deixando a sugestão que o controlo da placa bacteriana poderá ser importante na redução de risco de cancro.

Periodontite e cancro da mama

A mesma equipa de investigadores suecos do Instituto Karolinska, publicou um estudo anterior no qual parece haver uma relação entre a doença periodontal e um maior risco de cancro da mama. Esse risco parece ser superior nas mulheres que tenham perdido algum molar devido à periodontite. Dos sujeitos com periodontite e um ou mais molares perdidos, 5,5% desenvolveram cancro da mama contra 0,5% daqueles que têm periodontite mas não perderam nenhum molar. O estudo conclui dizendo que a doença periodontal crónica indicada por molares perdidos parece estar estatisticamente relacionado com o cancro da mama.

Periodontite e cancro do pâncreas

Além do cancro da mama, outros estudos sugerem que poderá haver uma relação entre a doença periodontal e o cancro do pâncreas. Um dos primeiros estudos a estabelecer de forma mais convincente essa relação chegou à conclusão que homens com um historial desta doença têm um risco 64% superior de desenvolver cancro do pâncreas. Esse risco é superior quando exista perda de dentes. Outro estudo mais recente descobriu que níveis elevados de anticorpos devido à presença da bactéria da boca Porphyromonas gingivalis pode estar associado com um risco duas vezes superior de cancro do pâncreas.

Mecanismos biológicos

Não se conhecem ainda todas as causas que poderão estar na origem da relação entre a saúde oral e o risco de cancro. A placa bacteriana forma-se na superfície dos dentes e tem um papel da etiologia das doenças orais tal como cáries e doença periodontal. Além disso, poderá estar associada a problemas sistémicos do organismo através da libertação de bactérias para o organismo com uma subsequente resposta dos níveis inflamatórios. Se houver negligência na higiene oral, os depósitos de bactérias acumulam-se. Células microbianas, toxinas e enzimas são assim libertadas da placa. Os micróbios e os seus metabolitos podem entrar na circulação sanguínea e distribuir-se por partes diferentes do organismo com potenciais consequências sistémicas.

A periodontite é a principal causa de perda de dentes em adultos, resultante da infeção bacteriana e inflamação das gengivas, as quais estendem-se aos ligamentos e osso que suportam o dente. As infeções associadas a este tipo de problemas na saúde oral têm como consequência um aumento dos níveis de inflamação enquanto resposta do sistema imunitário. Uma vez que estas infeções geralmente prolongam-se no tempo contribuem assim para uma inflamação crónica a qual sabe-se que contribui muito para o potencial desenvolvimento de vários tipos de cancro. A periodontite está associada a um aumento dos marcadores inflamatórios do organismo, e essa poderá ser uma das vias pela qual a saúde oral aumenta o risco de alguns cancros, não só os da boca. Uma vez que a inflamação parece ter um papel importante na patogénese do cancro do pâncreas, esse poderá ser um fator importante na relação entre periodontite e risco desse cancro.

Outro dos mecanismos possíveis poderá ter a ver com a produção de substâncias cancerígenas resultante da doença periodontal, nomeadamente as nitrosaminas, substâncias cancerígenas. Indivíduos com uma má higiene oral têm níveis superiores de bactérias presentes na boca tendo assim consequentemente níveis muito superiores de nitrosaminas na sua cavidade bucal, derivado da ação dessas bactérias. Alguns estudos sugerem haver uma relação entre as nitrosaminas e o risco de cancro do pâncreas.

Outra das explicações para uma eventual relação causal entre uma má saúde oral e o risco de cancro poderá ter a ver com os níveis de vitamina D no organismo. Como se sabe, níveis baixos de vitamina D estão relacionados com um aumento de risco de vários cancros. A presença de placa bacteriana dos dentes pode ser indicativo de níveis baixos de vitamina D no organismo, uma vez que o seu metabolito ativo, o 1,25-dihidrocolicalciferol, tem efeitos antibacterianos. Níveis superiores desta vitamina estão associados a menos cáries e menor risco de doença periodontal.

Além disso, uma má saúde oral pode resultar em dificuldades na mastigação, o que condiciona as escolhas alimentares disponíveis levando a um decréscimo no consumo de alimentos ricos em fibras, tais como vegetais e frutos, aumentando-se assim o risco de cancro e outros problemas de saúde.

Tratamentos de cancro e saúde oral

Não só a saúde oral poderá ser importante na prevenção de alguns cancros como tem implicações no tratamento de cancro. Cerca de um terço dos sobreviventes de cancro desenvolvem problemas de saúde oral resultantes dos tratamentos. Alguns dos efeitos colaterais destes tratamentos reflete-se em complicações que afetam a boca e os dentes. Estes problemas podem interferir com o tratamento e diminuir a qualidade de vida do paciente. Radiação à cabeça e pescoço, quimioterapia e transplantes de medula podem causar complicações que vão desde secura da boca até infeções que podem ter riscos sérios para a vida do paciente. Um boa saúde oral antes, durante e depois de um tratamento de cancro é por isso fundamental. Nesta ligação estão descritos vários dos cuidados necessários orientados tanto para os profissionais de saúde como para os pacientes.

A boca é de facto um espaço previlegiado da experiência humana. Com ela comemos, falamos e até amamos, talvez as funções mais centrais das nossas existências. Sendo o cancro uma doença de estilo de vida, para a qual inúmeros fatores contribuem entre si para a sua génese, a saúde da boca surge como mais um dos fatores importantes a incluir numa estratégia de prevenção. Munidos de todos estes instrumentos ficamos assim “armados até aos dentes”, mais confiantes da nossa vitória nesse combate que travamos contra o cancro… e a prevenção é a melhor arma que temos, de longe.

Referências:

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http://www.nidcr.nih.gov/OralHealth/Topics/CancerTreatment/

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