Farelo do arroz eficaz na prevenção do cancro colo-retal

Na tradução para o chinês da oração cristã do Pai Nosso, o “pão nosso de cada dia” é substituído por “arroz nosso de cada dia”. Poderíamos acrescentar: e que seja integral!

rice_cultivation_iranEm algumas partes do mundo o verbo “comer” significa literalmente “comer arroz”. Este cereal tem servido de base para a dieta de muitas regiões do mundo. Naturalmente rico em inúmeros nutrientes e fitoquímicos, é na sua forma integral que podemos beneficiar das suas propriedades. Quando processado pelos procedimentos modernos de refinação, nos quais lhe é retirado o farelo onde se concentram a maior parte dos nutrientes, ficamos com um alimento branco e desprovido de valor nutritivo com um elevado índice glicémico. O processo que transforma o arroz integral em arroz branco destrói cerca de 67% da vitamina B3, 80% da vitamina B1, 90% da vitamina B6, metade do manganésio, metade do fósforo, 60% do ferro e toda a fibra assim como ácidos-gordos essenciais. O que ficamos a fanhar com esse procedimento? Um arroz branco, fácil de digerir, bonito de apresentar mas com poucas vantagens para a saúde. Esse tem sido aliás um caminho recorrente desde que se introduziram mudanças na produção dos alimentos no pós-guerra. A necessidade de produzir muito com reduzidos custos, aliado a um princípio de lucro e de cosmética, transformou a nossa dieta num concentrado de potenciais doenças crónicas e degenerativas.

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Um estudo recente desenvolvido na Universidade do Colorado veio reforçar a importância de consumirmos alimentos não refinados. O estudo centra-se nas propriedades quimiopreventivas do farelo do arroz (a parte retirada ao cereal no processo de branqueamento). Além disso, encontra-se igualmente em curso um estudo clínico que busca testar a eficácia do farelo de arroz na prevenção da recidiva de cancro colo-retal. De acordo com Elizabeth Ryan, um dos autores, “existe um delicado equilíbrio de componentes bioativos no farelo do arroz os quais todos juntos mostram ter uma atividade anticancerígena incluindo a capacidade de inibir a proliferação das células, alterar a progressão do ciclo celular e induzir a apoptose nas células malignas”. Ryan e os seus colegas investigadores descobriram que essas propriedades estão relacionadas com a presença de moléculas como polifenóis, ácido ferúlico, tricina, β-sitosterol, γ-orizanol, tocoferóis e ácido fítico. Na tentativa de perceberem quais os princípios químicos individuais que pudessem ser responsáveis pelas suas propriedades anticancerígenas, os investigadores chegaram à conclusão que se trata da ação sinérgica entre os vários componentes no alimento inteiro aquela que deverá ser estudada.

Arroz01Os estudos em laboratório e modelo animal têm mostrado que os componentes bioativos do farelo de arroz  agem não só dentro das células de cancro mas também à volta das células, criando condições nos tecidos circundantes que promovem o funcionamento das células saudáveis e inibem a função das células de cancro. A atividade sobre o microambiente dos tecidos circundantes inclui a mediação da inflamação crónica que cria um ambiente fértil para o desenvolvimento do cancro. Estes resultados vêm sublinhar aquilo que cada vez mais representa a abordagem sistémica na compreensão do cancro. As células de cancro dependem de condições favoráveis do terreno onde estão inseridas para poderem desenvolver-se e progredir. Parte da estratégia de prevenção e tratamento deverá passar por agir sobre este microambiente contrariando as eventuais condições favoráveis ao seu desenvolvimento e inibindo a sua evolução.

A investigadora Elizabeth Ryan e os seus colegas estão a colaborar no sentido de avaliar como o farelo de arroz poderá também promover uma resposta imunitária anticancerígena e modelar o metabolismo da microbiota intestinal na proteção contra o cancro. Havendo cerca de 100000 variedades de arroz no mundo, os investigadores buscarão descobrir a melhor composição para uma quimioprevenção. Uma vez que o arroz é uma alimento acessível em muitos locais de todo o mundo, trabalhar com o farelo de arroz como um agente quimiopreventivo presente na dieta tem um potencial de impactar uma porção significativa da população mundial, de acordo com Ryan. Além disso esta equipa deu um passo novo na pesquisa sobre este componente, tendo dado início a um estudo clínico com o objetivo de avaliar a eficácia quimiopreventiva do farelo de arroz em sobreviventes de cancro colo-retal.

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O cancro colo-retal representa o terceiro tipo de cancro mais comum no mundo inteiro, embora exista uma incidência muito inferior em países menos desenvolvidos, aumento muito com a industrialização e urbanização. Neste momento, devido ao progressivo desenvolvimento destes países, os casos estão a aumentar. Ainda assim, continua a ser relativamente incomum em África e grande parte da Ásia. É uma doença fatal em perto de metade dos casos, sendo a 4ª causa de morte mais comum de cancro. De uma maneira geral, de acordo com as evidências disponíveis, os especialistas consideram que a dieta tem um papel fundamental na prevenção e causa deste tipo de cancro. No atual estado de conhecimento, o consumo de carnes vermelhas e processadas está de forma convincente relacionado com um aumento de risco de cancro colo-retal. De acordo com a estimativa do maior relatório desenvolvido sobre a relação entre nutrição e cancro, caso se reduzisse o consumo de carnes vermelhas e processadas e se consumisse mais alimentos ricos em fibras (como o farelo de arroz referido no estudo mais acima), cerca de 45% de casos de cancro colo-retal poderiam ser evitados.

whole-grain-wikiNo que diz respeito ao cancro colo-retal e prevenção de recidivas em sobreviventes, recentemente um estudo sugere que consumir alimentos com índice glicémico elevado não só poderá aumentar o risco de vários cancros, como poderá aumentar o risco de recidiva após tratamento. Este resultado é importante no sentido de contribuir para uma melhor gestão da sobrevivência assim como participação do sobrevivente na sua própria recuperação através de alterações na dieta e estilo de vida. Segundo os resultados de um estudo desenvolvido por investigadores do Dana-Farber Cancer Institute onde foram observados mais de 1000 pacientes com cancro colo-retal em estágio avançado, os sobreviventes de cancro colo-retal cuja dieta seja fortemente baseada em alimentos ricos em hidratos de carbono e açúcares poderão ter mais probabilidades de ter uma recidiva da doença quando comparados com aqueles que têm uma dieta mais equilibrada. Essa associação é mais evidente em pacientes que tenham excesso de peso ou sejam obesos, segundo os autores.

Geralmente os alimentos com um indice glicémico mais elevado que consumimos, quando eliminamos aqueles aos quais foi adicionado açúcar, são as farinhas e cereais refinados, aos quais foi retirado o farelo, fonte de fibra, nutrientes e fitoquímicos. Juntam-se assim dois fatores de risco: por um lado eliminamos da nossa dieta os componentes com propriedades quimiopreventivas e por outro passamos a consumir alimentos com um índice glicémico elevado, com todas as consequências para a saúde e nomeadamente para o cancro. A medida mais inteligente na prevenção da doença e de recidivas é por isso consumir alimentos integrais aos quais não foram retirados as fontes de substâncias protetoras de vários cancros.

O arroz integral, além de ser rico em fibra e em fitoquímicos quimioprotetores, é rico em manganésio, selénio, lignanas, magnésio e triptofano, entre outros. O seu consumo está associado a uma diminuição de risco para vários tipos de problemas de saúde e cancros.

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Referências:

http://www.coloradocancerblogs.org/clinical-trial-tests-rice-bran-to-prevent-cancer/

http://www.whfoods.com/genpage.php?tname=foodspice&dbid=128

www.dietandcancer.org

http://www.dietandcancerreport.org/cancer_resource_center/downloads/chapters/chapter_07.pdf

http://jnci.oxfordjournals.org/content/early/2012/11/02/jnci.djs399.abstract

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