Qual a relação entre a hormona IGF-1, proteína animal, dietas vegan e o cancro?

western-dietTalvez dois dos principais marcadores de uma ambiente orgânico propício ao desenvolvimento do cancro sejam duas hormonas: a insulina e o IGF-1 (insulin-like growth factor). Estes dois fatores são também aqueles que sinalizam aquela que poderá ser a principal condição para a epidemia generalizada do cancro: a dieta Ocidental. Como sabemos, o cancro é uma doença de estilo de vida, e a dieta representa a atividade central que o define. Podemos fumar ou não, fazer exercício físico ou levar uma vida sedentária, mas comemos sempre. E o que comemos promove ou previne as doenças degenerativas.

O estilo de vida ocidental é marcado por uma dieta rica em gorduras saturadas, açúcares refinados e proteína animal, acompanhados por falta de atividade física. Estes fatores e o excesso de peso associado estão associados à resistência à insulina e à hiperinsulinemia, ambos associados a diferentes tipos de cancro em estudos epidemiológicos. Tanto a insulina como o IGF-1 podem promover o desenvolvimento do cancro através da estimulação da proliferação celular e da inibição da apoptose. Tem sido sugerido que as alterações nos níveis de insulina e do IGF poderão ter um papel determinante nas incidências elevadas de cancro nos países ocidentais.

mb2aO que é o IGF-1

A hormona “fator de crescimento semelhante à insulina de tipo 1” (IGF-1) promove o crescimento dos tecidos desde a gestação até à infância, além de ter alguns efeitos anabolizantes (constituição corporal) na idade adulta. O nome deve-se ao facto de ter uma grande semelhança química com a insulina. A sua produção dá-se primeiro no fígado estimulada pela hormona de crescimento derivada da hipófise (GH). O eixo GH (growth hormone)– IGF (insulin-like growth factor) tem um papel bem estabelecido na regulação do crescimento somático, e muitas são as evidências de que essas hormonas também contribuem para o crescimento de tecidos neoplásicos. O IGF-1 contribui para o desenvolvimento do cérebro, do crescimento de músculos e ossos e para a maturação sexual. Os níveis mais altos de IGF-1 ocorrem durante a infância e a puberdade. Com a idade, os níveis desta hormona diminuem progressivamente podendo esta ser uma das razões pelas quais os centenários apresentam níveis tão baixos de cancros. O IGF-1 é regulado por uma família de proteínas conhecidas por proteínas de ligação IGF (IGFBP). Estas proteínas ajudam a regular a ação do IGF-1 inibindo-a evitando que se ligue aos recetores, mas também em certas circunstâncias promovendo-a.

a26fig01IGF e o cancro

A primeira evidência de uma possível associação entre a GH e o cancro surgiu em 1950 com a demonstração de que doses suprafisiológicas da GH, quando administradas a ratos, causavam alterações neoplásicas em vários órgãos. Desde então, vários estudos têm mostrado haver uma relação entre níveis elevados desta hormona no sangue e o risco de vários cancros. Alguns autores como T. Collin Campbell, sugerem mesmo que o IGF-1 possa ser um indicador para o cancro assim como o colesterol o é para a doença cardíaca. Embora esta hormona seja crucial para o desenvolvimento durante a infância, se os seus níveis se mantiverem elevados durante a idade adulta isso pode estimular o desenvolvimento do cancro assim como acelerar o envelhecimento precoce. Alguns mecanismos associados ao IGF-1 poderão contribuir para o desenvolvimento do cancro, tais como a sua ação proliferativa, antiapoptótica e angiogénica, além de poder promover a metastização.

a26tab03Os níveis elevados de IGF-1 têm sido associados a quase todos os tipos de cancro embora essa relação seja mais evidente relativamente aos cancros mais comuns, tais como os da mama, próstata e colo-retal.

  • Cancro da mama: o Centro Europeu sobre Cancro e Nutrição (EPIC) verificou que os níveis elevados de IGF-1 estavam associados a 40% de risco superior de cancro da mama em mulheres na pós-menopausa. Uma meta-análise que reuniu os dados obtidos de 17 diferentes estudos prospetivos concluiu que as mulheres com níveis superiores de IGF-1 no sangue tinham um risco 28% maior de ter cancro da mama independentemente de terem tido ou não a menopausa. No Nurses’ Health Study, os níveis elevados de IGF-1 foram associados a um risco superior de cancro da mama, duas vezes maior em mulheres na pré-menopausa.
  • Cancro da próstata: uma meta-análise a 42 estudos diferentes concluiu que os níveis elevados de IGF-1 em circulação estão associados a um risco superior de cancro da próstata. Um estudo sugere que níveis elevados de IGF-1 estão associados a um risco 5.1 vezes superior de cancro da próstata de estágio avançado, sendo de 9.5 vezes superior quando associado a níveis baixos de IGFBP-3.
  • Cancro colo-retal: estudos epidemiológicos, clínicos e de laboratório sugerem que níveis elevados de IGF-1 estão associados a um risco superior de cancro colo-retal. Uma análise a vários estudos conclui que a interação entre a insulina, o IGF-1 e as suas proteínas de ligação aumentam o risco de cancro colo-retal.

Dieta e IGF-1

Existem pelo menos dois elementos presentes numa dieta tipicamente Ocidental que contribuem para o aumento dos níveis de IGF-1 no organismo: alimentos com um índice glicémico elevado e proteína animal. Alimentos que provocam uma subida repentina nos níveis de açúcar no sangue obrigam a uma grande produção de insulina o que por sua vez estimula a produção de IGF-1. Ambas as hormonas são proliferativas e estão associadas a um risco superior de cancro. Além disso o consumo de alimentos com um índice glicémico elevado aumenta os níveis inflamatórios do organismo, outra das condições favoráveis ao desenvolvimento do cancro.

Outro dos nutrientes que promove o aumento de IGF-1 são as proteínas de valor biológico elevado, ou seja, que contenham todos os aminoácidos essenciais. Até muito recentemente pensava-se que uma alimentação adequada teria de ter necessariamente na mesma refeição proteína completa com os 9 aminoácidos essenciais. Hoje já se sabe que basta ao longo das várias refeições consumir alimentos variados cujas proteínas forneçam os aminoácidos necessários. Na realidade pode ser que existam vantagens no consumo de proteínas incompletas por dois motivos: por um lado ao existirem na forma de alimentos de origem vegetal são também fonte de fibra, fitoquímicos e outros micronutrientes necessários na manutenção da saúde, por outro lado podem reduzir os níveis de IGF-1 no organismo.

vegigfEstas diferenças entre as proteínas animais e vegetais podem ser comparadas quando se avaliam os níveis de IGF-1 em diferentes tipos de dieta. Um estudo que compara as diferenças entre dietas vegetarianas, vegan e omnívoras mostra que aqueles que seguem uma dieta vegan, sem nenhum tipo de proteína animal, apresentam os níveis mais baixos de IGF-1 e os níveis mais elevados de IGFBP. No estudo podemos observar como a proteína de soja, embora seja uma proteína completa, não contribui tanto para a subida dos valores de IGF-1 como a proteína animal. Isso pode dever-se ao facto de também elevar os níveis de IGFBP o que inibe a disponibilidade de IGF-1 livre.

Das proteína de origem animal, os laticínios parecem ser aqueles que mais aumentam os níveis de IGF-1 no sangue. O consumo de leite em crianças está associado a um aumento de 30% nos níveis de IGF-1. Crianças mongóis após um mês a consumir leite sem nunca terem antes consumido, apresentaram um aumento de 23,4% nos níveis de IGF-1. Outro estudo que avaliou 2109 mulheres detetou um aumento de IGF-1 com o consumo de leite e queijo.

Uma série de estudos foram feitos nos quais voluntários forma colocados em regimes de alimentação diferentes. De seguida foi recolhido sangue e colocado em pratos de petri em contacto com células de cancro. O sangue de mulheres colocadas em dietas sem produtos animais durante duas semanas inibiu o crescimento de células de cancro da mama em laboratório. O mesmo pode ser observado no cancro da próstata.

Este motivos juntamente com outros poderão ser a razão pela qual estudos recentes comprovam que uma dieta vegan poderá ser a forma mais eficaz de prevenir o cancro. Um estudo recente financiado pelo National Cancer Institute sugere que as dietas vegan (sem produtos animais) poderão ser a forma mais eficaz de prevenção do cancro. Já sabíamos que dietas predominantemente vegetarianas reduzem o risco de cancro mas este estudo sugere que uma dieta vegan pode ser ainda mais eficaz. Mulheres vegan, por exemplo, têm 34% menos probabilidade de virem a ter cancro da mama ou do ovário, mesmo quando comparado com indivíduos com uma dieta responsável, de acordo com os resultados do estudo.

Numa sociedade onde a proteína animal e os hidratos de carbono simples representam os cobiçados protagonistas principais de uma refeição, podemos perceber como todos os dias, em cada refeição, contribuímos para que possam vir a surgir doenças degenerativas, muitas delas evitáveis caso adquiríssemos hábitos mais conscientes e responsáveis. Substituir alimentos deste tipo por outros, ricos em fitoquímicos e micronutrientes, é uma forma eficaz de baixar os níveis de insulina, IGF-1, níveis inflamatórios e inundar o organismo de substâncias protetoras e saudáveis.

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